Sem dúvida alguma, do ponto de vista da forma, a diplomacia do governo Lula ostenta
um ativismo exemplar, representado por um intenso programa de diplomacia presidencial, complementado
por um ainda mais ativo circuito de contatos, encontros, viagens de trabalho e conversações a
cargo do chanceler e, de maneira algo inédita para os padrões do Itamaraty, do próprio
Secretário-Geral das Relações Exteriores, funcionário normalmente (e tradicionalmente)
dedicado às lides administrativas e aos assuntos de “economia doméstica” da Casa. Tanto o
ministro Celso Amorim, como seu principal auxiliar, embaixador Samuel Pinheiro
Guimarães, têm conduzido uma das fases mais dinâmicas da diplomacia brasileira em
qualquer época histórica. São obviamente divergentes muitas das análises e avaliações que se
fazem sobre o mérito relativo de cada uma das iniciativas tomadas por esses responsáveis
(assim como pela própria assessoria presidencial), sobre a orientação geral imprimida à
política externa, assim como sobre o desempenho efetivo dessa diplomacia inovadora em
termos de aumento do “bem-estar” nacional ou do prestígio internacional do País, mas não se
pode deixar de reconhecer seu caráter dinâmico e “multi-presencial”.
Do ponto de vista do conteúdo, a diplomacia do governo Lula apresenta uma postura
mais assertiva, mais enfática em torno da chamada defesa da soberania nacional e dos
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interesses nacionais, assim como de busca de alianças privilegiadas no Sul, com ênfase
especial nos processos de integração da América do Sul e do Mercosul, com reforço
conseqüente deste último no plano político. Tudo isso não deve surpreender os observadores
mais argutos, pois que essas propostas figuram nos documentos do PT há praticamente vinte
anos, por vezes nos mesmos termos e estilo (até na terminologia) que os atualmente
proclamados, coincidindo, portanto, com a política externa praticada pelo governo Lula.
No que se refere à agenda diplomática propriamente dita, pode ser ressaltada a postura
essencialmente crítica assumida em relação à globalização e à abertura comercial, com um
maior empenho na reafirmação das posições tradicionais do Brasil em matéria de negociações
comerciais (busca de acesso aos mercados dos países desenvolvidos, com a manutenção dos
mecanismos que favorecem países em desenvolvimento, não engajamento em demandas de
liberalização que possam representar comprometimento do que foi chamado de capacidade
nacional de estabelecer políticas nacionais e setoriais de desenvolvimento e de autonomia
tecnológica), bem como uma definição contrária – também tradicional no PT – à conhecida
“fragilidade financeira externa”, com a implementação conseqüente de políticas que
permitam a produção de saldos comerciais e não aprofundem a dependência de capitais
estrangeiros na frente econômica externa.
No plano político, são evidentes o projeto de reforçar a capacidade de “intervenção” do
Brasil no mundo, a assunção declarada do desejo de ocupar uma cadeira permanente num
Conselho de Segurança reformado e a oposição ao unilateralismo ou unipolaridade, com a
defesa ativa do multilateralismo e de um maior equilíbrio nas relações internacionais. No
plano econômico, trata-se de buscar maior cooperação e integração com países similares
(outras potências médias) e vizinhos regionais.
Refência:
Paulo Roberto de Almeida;Uma política externa engajada: a diplomacia do governo Lula.Disponivel em:http://www.pralmeida.org/05DocsPRA/1260PExtLula.pdf Acessado em:12/04/2010 as 10:35
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